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sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

O MITO DE D. PEDRO E D. INÊS: OS TÚMULOS


O amor trágico de D. Pedro I e D. Inês de Castro apelou ao romantismo de várias gerações, colecionando manifestações na literatura e noutras artes, que contribuíram para uma mitificação do episódio histórico. Com o passar do tempo, tornou-se um símbolo intangível de amor perfeito e eterno, não muito diferente no imaginário popular dos ficcionais Romeu e Julieta ou Tristão e Isolda. Contemporaneamente aos acontecimentos, foram produzidos dois objectos artísticos que formaram do mesmo modo a nossa visão do sucedido: falamos claro dos túmulos de D. Pedro e de D. Inês, no Mosteiro de Alcobaça, que estarão em foco nesta segunda parte do artigo em colaboração com a Idade Média POP.


Jacentes de D. Pedro I e D. Inês, nas suas arcas tumulares no Mosteiro de Alcobaça


Os túmulos são das primeiras fontes medievais a alimentar este mito. Na Idade Média, a tumulária foi adquirindo mais monumentalidade ao longo dos séculos, constituindo-se objecto de afirmação de status político e social, mas também de propagação de mitos. Deve ter sido D. Pedro o principal autor intelectual destas obras, com o auxílio provável dos monges de Alcobaça, que tinham acesso através da biblioteca a obras teológicas e iluminuras com iconografias que podem ter inspirado o programa dos túmulos. Segundo Joana Ramôa Melo, investigadora em quem nos baseamos largamente para esta secção do artigo, mesmo no além-morte perpetua-se uma relação de dependência entre marido e mulher. Há uma subordinação da memória de Inês de Castro às intenções de Pedro I, porque é o rei, na sua soberana sapiência, que assim decide. Trata-se, portanto, de um programa iconográfico feminino desenhado por um homem. Contudo, os túmulos são um projecto conjunto e relacionam-se entre si formal, iconográfica e ideologicamente, complementando as leituras um dos outro nas faces correspondentes das arcas.


A simbologia dos túmulos do par tem diversos níveis de leituras, complexas e intricadas. Nas estátuas jacentes, são representados, individualmente, um casal de monarcas, ambos munidos de regalia – a coroa e o manto – e acompanhados de um conjunto de anjos que os amparam na sua viagem pós-morte. No entanto, se, por um lado, D. Pedro é representado muito convencionalmente como um cavaleiro de espada, o jacente de Inês de Castro foge mais à tradição, no sentido em que é retratada como uma cortesã que não lê um livro ou sequer ergue as mãos em oração, como era habitual para as estátuas tumulares femininas da Idade Média portuguesa, mas antes acaricia um colar de pérolas com uma mão enluvada, enquanto a outra segura outra luva. Como é evidente, o atributo da coroa em Inês é extremamente significativo e é mais um passo na sua afirmação, por parte de D. Pedro, como rainha de Portugal.


O programa iconográfico dos túmulos atinge, ao nível das arcas tumulares, mais profundas camadas de significação. O túmulo de D. Pedro tem como temas a infância de São Bartolomeu e o seu martírio nas faces maiores. Nas faces menores estão a Roda da Vida e Fortuna, bem como a representação da Boa Morte. Já o túmulo D. Inês tem representadas a infância e Paixão de Cristo nos faciais maiores, enquanto nos outros ostenta as iconografias do Juízo Final e do Calvário. Percebemos desde logo como as iconografias de cada um dos túmulos têm associações simbólicas entre si, relacionando à infância de São Bartolomeu a infância de Cristo e ao martírio do apóstolo a Paixão de Cristo; por outro lado, o Calvário de D. Inês, cena da morte de Cristo, tem correspondência com a face respectiva no túmulo de D. Pedro. A Boa Morte e o Juízo Final na arca da dama corresponde à Roda da Vida e da Fortuna na arca de D. Pedro.


São de destacar várias características inéditas na tumulária portuguesa medieval feminina do túmulo de D. Inês. A mais fascinante é a escolha de um programa iconográfico cristotélico para um sepulcro feminino, ditando a tradição de que ficavam sempre reservados para mulheres tumuladas temas marianos, de santas mártires ou a da representação da defunta como devota de uma determinada ordem religiosa (a Rainha Santa Isabel é retratada no seu jacente com o hábito das clarissas e a bolsa de peregrina de Santiago). No caso da vida trágica de Inês de Castro, decidiu-se que não haveria melhor metáfora do que a vida de Cristo, um homem que se sacrificou pelos pecados dos outros, tal como Inês se sacrificou por questões políticas que lhe eram transversais. Inês, ou Agnes em latim, significa a pura ou casta. Agnes também é sinónimo de cordeira, tal como Agnus Dei é o cordeiro místico de Deus, símbolo metafórico de Cristo. A Santa Inês ou Agnes, mártir romana e santa patrona das virgens, tem como atributo o cordeiro. O cordeiro, símbolo partilhado entre Santa Agnes e Cristo, é metáfora para a pureza e para o sacrifício, para a remissão dos pecados. A força simbólica de Cristo e do cordeiro imolado no túmulo de Inês fazem, por isso, todo o sentido. Também a integração de membros femininos no conjunto de músicos jubilatórios na arca tumular de Inês é novidade na iconografia medieval portuguesa, e o mesmo acontece com a inclusão de personagens femininas na linha da frente dos selecionados para ir para o Céu na cena do Juízo Final.


Já no túmulo de D. Pedro, além da opção iconográfica pela vida e martírio de São Bartolomeu, seu santo pessoal, é na Roda da Vida e da Fortuna que podemos encontrar mais pormenores que podem ser tão biográficos como aqueles que acabámos de enunciar acima. Realçando que a iconografia da Roda da Vida e da Fortuna não é de fácil interpretação, vamos fazer apenas alguns apontamentos sobre as mesmas. Bem à maneira da mentalidade medieval, ambas as Rodas são uma representação simbólica da concepção dos ciclos da vida, da morte e do destino do ser humano, complementando, portanto, as iconografias do mártir Bartolomeu e da Boa Morte em D. Pedro e da paixão de Cristo, Juízo Final e Calvário em D. Inês. Bem visto, a leitura global destes túmulos tem um sentido moral e universalizante que reflecte sobre o ser humano, a sua luta constante com a tentação e o pecado, a necessidade da sua remissão, a morte e a ressurreição. Na maioria das edículas que compõem as Rodas, é representado um casal que namora, dá a mão, que está entronizado e coroado, que passa por momentos de agonia. Além disso, surge uma referência ao assassinato de D. Inês, apresentando-se aqui D. Inês como vítima de um assassinato cobarde e feroz perpetrado pelos algozes, perseguidos e executados por D. Pedro noutra edícula. O assassinato de Inês e o castigo dos homicidas é incluído neste programa funerário dos túmulos do casal e fica registado visualmente para a posteridade, para que ninguém se olvidasse da vítima, dos culpados e, também, do herói.


Por fim, os túmulos de D. Pedro e D. Inês, como verdadeiros pontos de partida para este mito, fixam-no a partir de variadas ideias: a história de amor do casal, o seu estatuto social e político, a sua espiritualidade e o seu destino. A imagem de Inês, construída por D. Pedro, é clara: Inês é aqui uma rainha de Portugal e passa a estar incluída na história da família real portuguesa como tal, bem como os filhos do casal na lista de infantes portugueses. Inês ganha imagem de dama inocente, quase virginal, como o cordeiro, já que ela foi vítima de intrigas políticas e da paranoia de homens cruéis. Como Cristo, Inês é uma bem-aventurada, uma mártir, um cordeiro que aceita o seu sacrifício e caminha heroicamente para ele. Torna-se, aqui, uma rainha, mas também uma mártir, como Jesus. A sua imagem é glorificada e santificada neste monumento, e a sua linhagem, enquanto membro da família Castro, não é esquecida, mas antes orgulhosamente apresentada no rebordo da caixa. Não conhecemos aqui a personalidade de Inês, mas a imagem que dela se quis deixar para a posteridade e comemorar com um impactante projecto funerário verdadeiramente comunicativo.


A história real de D. Pedro e D. Inês é talvez mais interessante que a do mito: enquanto o mito apresenta a Portugal uma inocente história de amor, o episódio histórico revela-se bem mais complexo e, em muitos pontos, ainda não totalmente resolvido para a historiografia. Monarcas com amantes houve muitos, e D. Pedro certamente teve mais relações com outras mulheres; então porque é que Inês de Castro foi diferente? Segundo o que nos informa a História, parece ter existido, realmente, um grande amor entre Pedro e Inês. O rei desenvolveu uma relação adúltera, gerando descendentes com essa mulher, uma dama que tinha ligações a uma família de largo poder e influência na Península Ibérica. O ambiente político vacilava em Portugal há algum tempo, e a corte e o rei, Afonso IV, viram nos filhos de D. Inês uma ameaça ao processo de sucessão do único varão legítimo que D. Pedro tinha, o infante D. Fernando. Assim, agiram mais para prevenir do que remediar, matando a amante do rei antes que fosse tarde demais – possivelmente, antes que D. Pedro e D. Inês legitimassem esse casamento. No entanto, D. Pedro agiu com as ferramentas que tinha em seu poder, de uma maneira ousada e nunca antes vista em Portugal: antecipou-se e casou, segundo as suas próprias palavras, em segredo com D. Inês; reabilitou e glorificou esta mulher demonizada, fazendo-lhe uma trasladação pública e espetacular; fixou a sua imagem como rainha de Portugal nos túmulos verdadeiramente monumentais de Alcobaça. Tenha sido por amor ou como um acto político de legitimação dos seus filhos bastardos com a Castro, D. Pedro elevou a memória de D. Inês e, radicalmente, proclamou-a – directa ou indirectamente – rainha de Portugal, indo contra as convenções numa época medieval em que as convenções, hierarquias e rituais eram tudo. A história de Pedro e Inês é, por isso, mais estranha que a ficção.



Inês Mineiro Abreu | Idade Média Pop


sexta-feira, 27 de novembro de 2020

O MITO DE D. PEDRO E D. INÊS


A história de amor entre D. Pedro I e Dona Inês de Castro tornou-se um símbolo de amor perfeito e eterno, uma espécie de Romeu e Julieta à portuguesa. Mas contrariamente às personagens nascidas da mente de Shakespeare, D. Pedro e D. Inês foram pessoas de carne e osso, inseridas num contexto social e político real, tantas vezes negligenciado na hora de distinguir facto e mito. Neste artigo, feito em colaboração com a Idade Média POP, vamos proceder à desconstrução do mito de D. Pedro e D. Inês, analisando as suas circunstâncias na corte portuguesa de meados do século XIV.


Pintura romântica sobre o mito de D. Pedro e D. Inês, por Columbano Bordalo Pinheiro


Toda a gente sabe esta história: no tempo dos reis, D. Pedro I, um monarca cruel e justiceiro, apaixonou-se enquanto príncipe por uma dama galega chamada D. Inês de Castro. Adúltero, o casal viveu em pecado após a morte da mulher de D. Pedro e teve quatro filhos, causando o escândalo geral e a fúria do rei pai, D. Afonso IV, que manda executar brutalmente Inês diante das suas crias. O louco e apaixonado Pedro, cego de dor e doente de coração partido, guerreia contra o pai; quando sobe ao trono, manda perseguir os algozes executores de Inês e, por fim, faz à sua amada a mais bonita homenagem de sempre, coroando-a como rainha de Portugal e fazendo toda a população beijar a mão do seu corpo morto. Esta é a história do Romeu e Julieta portugueses. Fim.


Apesar do protagonismo de Inês de Castro num dos mais populares mitos do imaginário português, pouco se sabe sobre a personalidade, pensamento e intenções. Muito menos sobre a sua voz: por cima dela falaram os actos de D. Pedro, a concepção dos seus túmulos, a documentação coeva, as fontes literárias medievais, modernas e contemporâneas, que a mitificaram, bem como toda a arte que foi produzida inspirada nesta história. Inês de Castro não tem agência sobre a narrativa que dela ficou, e se a teve nos eventos históricos em que participou, não o sabemos. Tal como tantas outras personagens históricas femininas da Idade Média, a história que de D. Inês ficou, permanece marcada pela aparente passividade e perda de autonomia, ao contrário dos homens envolvidos nesta história, os agentes, que assumiram controlo das acções e decisões. O seu destino é decidido pelos outros – Inês é mandada para lá, trazida para cá, assassinada, trasladada, aclamada rainha. A sua voz e vontade são excluídas na narrativa, tal como a história das mulheres em geral. Apesar de ser uma história a dois, o mito de Pedro e Inês nunca foi sobre ambos; Inês é apenas um dispositivo narrativo num mito que pretende a promoção de um rei e a legitimação da sua descendência.


Inês de Castro era aia e dama de honor da castelhana D. Constança Manuel, que chegaria ao reino português para se casar com o infante D. Pedro. É difícil precisar o início da relação entre Pedro e Inês e se a mesma se inicia antes ou após a viuvez do infante, mas há dados que parecem apontar para que ambos já se conhecessem antes da chegada de D. Constança a Portugal. O príncipe e a dama galega levam vida de marido e mulher, contrariando todas as regras societais e cristãs de matrimónio, ainda mais rígidas para membros da realeza. Os princípios judaico-cristãos da sociedade em que viviam, que condenava agressivamente o adultério, não ajudariam o caso de Pedro e Inês. A relação pode não ter sido discreta o suficiente para ficar desconhecida do público e da corte, constituindo uma provocação à moralidade e políticas da sociedade medieval portuguesa.


Inês de Castro era filha de D. Pedro Fernandes de Castro, homem de grande destaque político em Castela, mordomo-mor de Afonso XI e primo direito de D. Pedro I, com quem cresce em Portugal. Inês de Castro e Pedro I de Portugal seriam, portanto, primos segundos, outro dos argumentos daqueles que se opuseram a esta relação. Adicionalmente a ser membro de uma das famílias mais poderosas da Hispânia, Inês foi criada pelo senhor de Albuquerque, Afonso Sanches, meio-irmão rival de Afonso IV de Portugal. Além disso, também existem ligações biográficas da dama galega com Diogo Lopes Pacheco através da sua mãe adoptiva, Teresa Sanches. Parte da biografia de Afonso IV é precisamente marcada, enquanto infante, pela predilecção de seu pai, D. Dinis, pelo filho bastardo Afonso Sanches e, depois, pela disputa entre Afonso IV e o meio-irmão pelo trono, conduzindo uma guerra civil encabeçada contra o próprio pai. No seio deste conflito, os Castro posicionaram-se também a favor de Afonso Sanches. Ironicamente, o reinado de Afonso IV terminaria como começou.


Estas informações ajudam a perceber bem como as ligações familiares de Inês, e não apenas o crime do adultério, podem ter fomentado a paranoia do rei português e dos seus conselheiros em relação à união da dama com o príncipe. O nascimento dos filhos do casal despertou alarmes na corte e em Afonso IV, que também havia disputado a sucessão ao trono com um irmão bastardo. Estes filhos ilegítimos podiam originar uma futura crise sucessória e pôr em causa a independência portuguesa. Assim, a história de amor entre Pedro e Inês, que existiu, prova-se uma verdadeira questão de Estado. Os Castro eram uma ameaça e Inês era a serpente sedutora que levaria o príncipe a cair na tentação.


Em 1355, a história de Pedro e Inês atinge o clímax. A 7 de Janeiro desse ano, Afonso IV reage à pressão da corte e ordena o assassinato de Inês de Castro. Segundo o Livro da Noa de Santa Cruz de Coimbra, Inês foi degolada, embora alguns autores literários do século XVI, como Camões, narrem a morte de Inês por esfaqueamento no abdómen. A lenda retrata D. Pedro como um homem sedento de vingança pela perda da sua amada e a documentação histórica parece confirmar isso mesmo. O príncipe inicia uma devastadora guerra civil contra o pai, assinando ambos depois um tratado de paz a 15 de Agosto de 1356. Quando Afonso IV morre e D. Pedro finalmente sobe ao trono em 1357, o novo rei, rancoroso, ordena a execução dos três homicidas da Castro, desfazendo aquilo que tinha sido celebrado no acordo de paz com o seu pai. Fernão Lopes, cronista que lança uma série de obras biográficas sobre os monarcas da primeira dinastia portuguesa, procurando legitimar os da Ínclita Geração, relata a particular violência deste episódio na Crónica de D. Pedro: “(...)e el-rrei dizendo que lhe trouxessem cebolla e vinagre pera o coelho, (...). A maneira de sua orte (...) seria mui estranha e crua de cobtar, ca mandou tirar o coraçom pelos peitos a Pero Coelho, e a Alvoro Gonçallvez pelas espadoas; (...). Enfim mandou-hos queimar: (...) Muito perdeo el-rrei de sua boa fama por tal escambo como este, (...)”.


Quando D. Pedro se torna rei, assume as rédeas da construção deste mito. Em 1360, o monarca faz um juramento público na igreja de Cantanhede, registado em diploma oficial, na presença de vários bispos e outras personagens de alta relevância política, afirmando que tinha casado em segredo há sete anos “per palavras de presente assi como manda a Sancta Egreja Donna Enes de Crasto” e “fazendo se maridança pela guisa que deviam”. Dava assim o primeiro passo de legitimação do casamento com Inês e dos descendentes desta união, um acto verdadeiramente radical e inédito de aclamação póstuma de uma rainha. 


Há algumas dúvidas por parte da historiografia e mesmo pelos autores de fontes medievais, como Fernão Lopes, acerca deste casamento. Não é surpreendente que Fernão Lopes, que escreve a crónica de D. Pedro com o objectivo de procurar justificar D. João I como legítimo sucessor ao trono e fundador da segunda dinastia portuguesa, se mostre também hesitante em aceitar o casamento do rei com D. Inês. Há outra documentação, embora saída da casa real portuguesa e, por isso, tendenciosa, que refere Inês de Castro e os seus filhos, como legítima mulher e infantes, respectivamente. 


Citamos aqui um documento da Chancelaria de 1358, em que se diz: “(...) e como seia nosso propósito e entençom de nos mandar hi deitar e dona Jnes de Castro nossa molher e nosso filhos (...)". No segundo testamento de D. Beatriz, em 1357, a rainha já nomeia os filhos de Inês de Castro como infantes. Também no testamento de D. Pedro I, de 1367, o mesmo é reafirmado: “(...) Item mandamos que entreguem aos filhos da Infante Donna Ignez, que outro si foi nossa mulher (...)”.


Provavelmente em 1361 ou 1362, D. Pedro dá um segundo importante passo na criação deste mito, buscando uma reabilitação da memória e imagem de Inês de Castro através de uma trasladação espectacular e pública que actua como uma reencenação das exéquias fúnebres da dama, também relatada por Fernão Lopes: “mais homrrada trelladaçom, que ataa aquel tempo em Purtugal fora vista”. O corpo de Inês foi trazido do Convento de Santa Clara, onde estava sepultado, para o de Alcobaça, numa longa procissão que inundou o caminho de gentes e círios. Mais uma vez, o rei assume controlo sobre a história, o legado desta relação e da sua amada. O tétrico beija-mão do cadáver de D. Inês é apenas uma lenda, porém, a realidade do que aconteceu não foi menos interessante do que isso.


Num último grande gesto público e pensado para a posteridade, D. Pedro, como primeiro grande impulsionador deste mito, decide um novo local de sepultamento e túmulo para D. Inês, segundo o seu próprio projecto de legitimação e afirmação política. O local escolhido é uma decisão cheia de significado: o mosteiro de Alcobaça, uma das mais prestigiantes casas monásticas e panteões régios do país. Para lá, o rei encomenda duas arcas monumentais para si e para Inês, pensadas como um projecto conjunto. Esta seria a última tentativa – e bem-sucedida – de glorificação e recuperação da boa memória de Inês, mas também de legitimação deste casal. Inédito foi também o facto de os túmulos não ocuparem o mesmo espaço que os restantes túmulos reais de Alcobaça teriam tido, na galilé; estes túmulos ficariam no mais privilegiado local do mosteiro – o braço Sul do transepto da igreja – sendo a primeira pessoa sepultada dentro da igreja de Alcobaça uma mulher, Inês de Castro.



Inês Mineiro Abreu | Idade Média POP 



Nota: A segunda parte deste artigo sai no dia 4 de Dezembro de 2020.


sábado, 12 de setembro de 2020

A ASCENSÃO E QUEDA DOS TEMPLÁRIOS


A Ordem do Templo foi fundada na sequência da tomada de Jerusalém na Primeira Cruzada (1099) e do início das peregrinações cristãs em massa para a Terra Santa. Após o seu estabelecimento no Monte do Templo, assumiram como missão a proteção dos peregrinos e dos lugares santos. Relatos semi-lendários descrevem a criação de uma irmandade de nove monges guerreiros, com à cabeça o francês Hugo de Payns, primeiro mestre de Jerusalém.


Após a oposição inicial daqueles que recusavam a ideia de um freire empunhar armas, os Templários são reconhecidos no Concílio de Troyes (1129) e pelo papado através da bula Omne datum optimum (1139). O seu maior patrono e defensor é o abade francês S. Bernardo de Claraval, reformador da Ordem de Cister, que chama a si a incumbência de redigir um código para a nova ordem religiosa.

O código templário de S. Bernardo e Hugo de Payns era estrito e ortodoxo, impondo a todos os iniciados votos de castidade, pobreza e obediência. Adaptado da regra beneditina, divergia da sua antecessora ao recusar a ideia de que um monge não podia defender-se ou cometer violências, lançando as bases para uma ordem simultaneamente religiosa e militar. Esta nova forma de Cavalaria seria a inspiração por detrás da ação de outras ordens de cavalaria religiosa, como os Cavaleiros Hospitalários ou a Ordem Teutónica.


A Ordem do Templo rapidamente suplantaria as suas funções de proteção dos peregrinos para adquirir protagonismo militar como corpo de elite das Cruzadas. A sua valentia em combate é lendária: estava-lhes vedada a retirada de batalha, exceto quando enfrentando desvantagem de três para um, e mesmo aí só quando ordenado pelo seu comandante ou perante a queda do estandarte. Esta forma destemida de lutar garantiu aos Templários gloriosas vitórias, não raras vezes contra um inimigo numericamente superior, mas também infligiu pesadas casualidades entre os seus efetivos (20000 perdas no decurso de dois séculos).

A necessidade de defender as rotas dos peregrinos levou ao assentamento por parte dos Templários de uma extensa rede de fortificações e commanderies entre a Europa e a Terra Santa. Para além de posições militares estes entrepostos tornaram-se uma espécie de agências bancárias onde era possível efetuar depósitos monetários que mediante a emissão de cheque bancário (os primeiros da História) eram reembolsáveis noutra parte do mundo.

A atividade bancária tornou a Ordem desmesuradamente próspera. A Santa Sé e os principais soberanos da Europa tinham nos seus cofres as suas contas-correntes. No auge do seu poder eram proprietários da ilha do Chipre e detentores de uma vasta frota movida entre portos secretos por todo o Mediterrâneo. A riqueza tornou-os poderosos mas atraiu também poderosos inimigos.

Em 1187 dá-se uma viragem nas Cruzadas com a reconquista de Jerusalém pelas forças islâmicas de Saladino. Os Templários são gradualmente sacudidos do Levante, reagrupando diversas vezes até à derrota final com a queda de Acre em 1291. O último bastião da Cristandade na Terra Santa era perdido para sempre e o apoio aos Templários começou a soçobrar, enquanto as críticas ao seu poder subiam de tom.

O Cerco de Acre por Dominique Papety (c. 1840)

No dealbar do século XIV a intervenção templária no Próximo Oriente tornara-se mínima ou inexistente. Com a perda da sua identidade matricial de guerreiros santos e guardiões dos peregrinos, era cada vez mais difícil de justificar o seu estatuto especial perante a Santa Sé, assim como isenções fiscais e privilégios. 
Cerca de 90% dos membros da Ordem já não empunhavam a espada mas a pena. Eram gestores de um extenso complexo financeiro que hoje podemos comparar anacronicamente a uma grande empresa multinacional.

A base operacional dos Templários abandona paulatinamente a Terra Santa para se fixar na capital francesa Paris, no bairro do Templo, que ainda hoje mantém o seu nome. A França é governada pela dinastia dos Capetos: o seu rei Filipe IV, o Belo, guarda ressentimento da Ordem onde a sua iniciação foi negada e aos cofres da qual é grande devedor. Com um papa fraco em Avinhão, pouco se interpõe entre o rei francês e os Templários, que vai aproveitar a primeira oportunidade para se vingar e equilibrar as finanças do reino à custa dos tesouros do Templo.

Filipe, o Belo (r. 1285-1314) e o papa francês Clemente V


Na sexta-feira 13 de Outubro de 1307, Filipe IV coloca em marcha uma mega-operação policial que captura ao nascer da aurora todos os Templários de França, sob acusações de heresia. No decurso dos sete anos que se seguem o povo francês vai assistir ao maior julgamento da sua História: no total 15 mil templários serão acusados. O rolo de pergaminho onde foram transcritos os interrogatórios existe atualmente e mede 22,20 metros.

Por toda a França templários são julgados e as suas propriedades apreendidas pela coroa. O caso lança ondas de choque através da Cristandade e poucos soberanos acreditam nas acusações tecidas contra eles: renunciar a Cristo e adorar o ídolo pagão Baphomet, dessecrar os símbolos cristãos em rituais iniciáticos, homossexualidade entre os seus membros. O modo de extração das confissões deixa igualmente dúvidas; por toda a parte surgem rumores de sevícias e violências infligidas aos prisioneiros pelos homens do rei.

No epicentro de todo o processo está o grão-mestre Jacques de Molay, um velho septuagenário que dedicara 40 anos da sua vida à causa templária. Encarcerado e sob vigilância constante na fortaleza de Chinon, o grão-mestre assina a confissão integral de todos os crimes. Mais tarde vai retratar a confissão, alegando ter sido coagido com tortura.

Jacques de Molay, o último mestre da Ordem do Templo

Os Templários conservaram até ao fim a esperança da intervenção papal que nunca surgiu. Pressionado pelo rei de França, o papa Clemente V decreta a supressão da Ordem a 22 de Março de 1312, deixando os seus membros à mercê da justiça secular e relegando os seus tesouros e propriedades para os Cavaleiros Hospitalários.

A abjuração de uma confissão feita previamente, coloca Jacques de Molay na condição de herege relapsado pela qual será condenado à morte na fogueira. A sentença será cumprida em Março de 1314 numa das ilhas do rio Sena e perante a Catedral de Notre-Dame. Segundo a lenda, o último grão-mestre pede para ser colocado de frente para a catedral, com as mãos amarradas juntas em sinal de oração. Perante o horror dos presentes, a voz do grão-mestre emerge do meio das chamas rogando uma maldição aos seus acusadores: menos de um ano sobre a sua morte, estariam perante Deus para responder pelos seus crimes. O guarda-selos do rei Guillaume de Nogaret e o papa Clemente morreriam no mês seguinte. Com a morte de Filipe IV num acidente de caça em Novembro do mesmo ano a maldição cumpria-se.



O FIM DOS TEMPLÁRIOS?


Mesmo após a sua destruição, a Ordem do Templo continuou a ser objeto de veneração e de mito. As respostas dos monarcas europeus às diretrizes papais de dissolução foram desiguais, com os templários e os seus bens a serem protegidos por algumas nações, notavelmente a Escócia de Robert the Bruce e o Portugal de D. Dinis. No caso português, as suas propriedades e privilégios foram assimilados por uma nova ordem de cavalaria religiosa criada para o efeito: a Ordem de Cristo.

A ligação de Portugal com a Ordem do Templo antecede a fundação do próprio reino. Foi uma das primeiras nações cristãs a acolher templários no seu território desde que Henrique, conde de Portucale e pai do primeiro rei, lhes concedeu carta de foral para Soure em 1111. Na reencarnação como Ordem de Cristo estarão intimamente relacionados com o movimento dos Descobrimentos, não fosse o seu grande impulsionador o infante D. Henrique, governador desta ordem.     

Convento de Cristo em Tomar, o quartel-general dos templários portugueses

É por vezes ecoada a teoria da sobrevivência da Ordem do Templo como sociedade secreta internacional, com intervenção em momentos cruciais da História. Um relato lendário descreve a aparição de um templário na execução do rei francês Luís XVI, que embebeu um pano no sangue do guilhotinado e terá gritado, "Jacques de Molay, a tua morte foi vingada!". Algumas ordens iniciáticas, nomeadamente a franco-maçonaria, afirmaram ter recebido o conhecimento esotérico e linha sucessória dos Templários, conhecendo-se neste registo os seus mestres até ao século XVIII. 




Luís Alves Carpinteiro | Cabo Não

quarta-feira, 3 de junho de 2020

A TOMADA DE SANTARÉM, POR ROQUE GAMEIRO


A conquista de Santarém, como ilustrada na obra Quadros da História de Portugal (1917)


"Já Afonso Henriques firmara em Leiria o seu poder e o sonho de dilatar os seus domínios para o sul tentava-o imensamente. No caminho de Lisboa e Santarém seria um formidável progresso mas a vila era difícil acometer, quási enexpugnável.

Contudo, nos princípios de 1147, Afonso Henriques mandou de Coimbra Mem Ramires para estudar a topografia de Santarém e o sítio onde as muralhas permitiriam mais facilmente o assalto. Depois, a 2 de Março partiu de Coimbra, avançou até Pernes e fez intimar os mouros de Santarém de que ficavam rôtas as tréguas que com êles tinha celebrado. 
Essa intimacão era um ardil: fatalmente os mouros rodobrando de vigilância durante êsses três dias descuidar-se-iam depois; e Afonso Henriques dispunha-se a aproveitar êsse descuido para o assalto.

Finalmente, na noite de 14 de Março, um trôço de 120 homens dos mais denodados, munidos de dez escadas de mão dirigidos por Mem Ramires e acompanhados pelo rei aproximaram-se do lanço do muro escolhido para a escalada. Julgavam que êsse sítio não estaria guardado; mas enganaram-se, e êste primeiro desalento logo foi agravado ao reconhecerem que as escadas eram curtas e não poderiam alcançar as ameias.

Valeu-lhes a casa de um oleiro construída junto à muralha; do telhado dessa casa Mem Ramires pôde erguer uma das escadas e logo trepar por ela à frente dos mais bravos. Debalde as sentinelas tentam gritar: «Nazarenos!»; as últimas sílabas morrem-lhes nas gargantas trespassadas - e logo os cristãos vão abrir a porta mais próxima ao audacioso Afonso Henriques."



por Chagas Franco e João Soares no Folheto explicativo dos Quadros da História de Portugal


domingo, 26 de janeiro de 2020

A HISTÓRIA POR TRÁS DE "THE KING"


Timothée Chalamet como Henrique V, rei de Inglaterra entre 1413 e 1422

No dia 2 de Setembro de 2019 estreou no Festival de Veneza "The King", realizado por David Michôd e distribuído pelo Netflix. No seu elenco figuram Timothée Chalamet, Lily Rose Depp, Robert Pattinson e Joel Edgerton. O filme é baseado nas peças de William Shakespeare Henrique IV e Henrique V, centradas na Guerra dos Cem Anos, uma série de conflitos que opuseram a Inglaterra à França entre 1337 e 1453.

A narrativa culmina na Batalha de Azincourt, que teve lugar no norte de França a 25 de outubro de 1415 e se saldou com a vitória decisiva das hostes inglesas sobre um adversário numericamente superior. Este desenlace afirmaria a primazia britânica na contenda, possibilitando a subsequente conquista da Normandia e o Tratado de Troyes (1420), que nomeava o rei de Inglaterra como sucessor do trono de França.

A Batalha de Azincourt foi imortalizada na obra de Shakespeare e tornou-se uma das batalhas clássicas do fim da Idade Média, estudada por estrategas militares em todo o mundo como um exemplo brilhante de táctica contra um exército em maior número.

A Batalha de Azincourt em iluminura do século XV

O caminho para Azincourt

Em 1337 o rei Eduardo III auto-proclama-se rei de França e invade a Flandres, despoletando a Guerra dos Cem Anos. A disputa pela coroa francesa vai alimentar inúmeras batalhas, cercos e escaramuças entre os dois países ao longo do século XIV.

Quando Henrique V ascende ao trono em 1413 vigoravam as tréguas de 1396, que proporcionaram um hiato nas lutas entre ingleses e franceses. A ambição do jovem rei e a conflitualidade interna do seu próprio país vão impeli-lo a renovar a reivindicação dos seus antecessores.

O reinado do recém-entronizado Henrique vive debaixo da sombra do ilegitimidade: a Casa de Lencastre é vista como usurpadora desde que o seu pai Henrique IV depusera Ricardo II em 1399. O recrudescer da tensão entre facções da nobreza e a família real leva a que várias tentativas sejam feitas contra a vida de Henrique e a que se espalhe a desordem no reino.

Simultaneamente a França enfrenta a sua própria crise. A loucura do rei Carlos VI e a sua debilidade aparente suscitam a cobiça da coroa francesa pelos seus inimigos políticos. Esta conjugação de factores vão converter este no momento ideal para Henrique V pôr em marcha um plano para forçar a sua reivindicação.

Quando as suas exigências territoriais são recusadas, o rei de Inglaterra toma a decisão de invadir França. Atravessa o Canal da Mancha com um contingente de 12 mil homens que imediatamente sitiam a cidade de Harfleur. A frágil trégua entre França e Inglaterra era assim quebrada, dando origem a uma nova fase da Guerra dos Cem Anos.

O cerco de Harfleur prolonga-se por seis semanas até à capitulação do lado francês. Apesar de breve, o assédio taxa pesadamente as forças de Henrique que diminuem vítimas das perdas em combate, da doença e da deserção. No comando de um exército exaurido e flagelado pela disenteria, Henrique ruma ao porto de Calais decidido a retirar para Inglaterra. No entanto o seu plano de fuga é frustrado quando as suas forças são interceptadas pelas do Condestável Carlos de Albret nas imediações da vila de Azincourt.


Batalha no Dia de São Crispim


A Batalha de Azincourt no filme "The King" (2019)


"This day is call'd the feast of Crispian.
He that outlives this day, and comes safe home,
Will stand a tip-toe when this day is nam'd,
And rouse him at the name of Crispian.
He that shall live this day, and see old age,
Will yearly on the vigil feast his neighbours,
And say "To-morrow is Saint Crispian."
Then will he strip his sleeve and show his scars,
And say "These wounds I had on Crispin's day."
(William Shakespeare, Henry V, Act IV, scene 3)


Com o exército invasor debilitado e severamente reduzido antevê-se uma vitória fácil para os franceses. O exército do Condestável francês excedia o de Henrique V, segundo algumas estimativas, numa proporção de 5 homens para 1 (6.000 ingleses vs. 20.000-30.000 franceses). O jovem rei vai saber porém usar habilmente táctica, terreno, clima e superioridade tecnológica em sua vantagem.

A vitória inglesa começa na escolha e preparação do terreno. Henrique posiciona as suas tropas num terreno arado limitado por bosques com um estreitamento na frente, anulando parcialmente a vantagem numérica francesa. Mas o verdadeiro trunfo inglês são os longbowmen, mortíferos arqueiros com um alcance superior a 250 metros.

O que seguiu foi o confronto de duas formas de fazer a guerra: o combate tradicional da Idade Média, baseado em cavaleiros de choque com pesadas armaduras e uma nova forma que caracterizará os séculos seguintes, o combate à distância através de artilharia.

Por voltas das 11 horas da manhã de 25 de Outubro de 1415 (Dia de São Crispim), inicia-se a investida francesa. Durante as duas semanas que precedem a batalha chove intensamente transformando o terreno num lamaçal escorregadio. A combinação deste factor com o peso das armaduras dos cavaleiros retarda a marcha do exército francês que exposto ao impressionante poder de fogo dos arqueiros ingleses sofre pesadas baixas.

Quando a vanguarda francesa alcança finalmente a posição inimiga depara-se com uma armadilha de estacas aguçadas. A confusão instala-se com o avançar de uma segunda linha que deixa os franceses praticamente costas com costas, impossibilitados de fazer uso das suas armas à medida que os ingleses apertavam o cerco.

Os relatos quanto à duração da batalha divergem entre a meia hora e as três horas. Estima-se que neste curto espaço de tempo 6 mil franceses (muitos deles destacados nobres, incluindo o Condestável) tenham perdido a vida, com o custo de apenas 400 homens para os ingleses. Na sequência da batalha Henrique V volta a Inglaterra onde a 23 de Novembro é recebido em apoteose na Catedral de São Paulo, em Londres. 

A derrota foi um duro golpe para as aspirações francesas que com uma nobreza dividida e enfraquecida não vai ter capacidade para resistir aos ataques ingleses. Em 1419 Henrique V conquistaria a Normandia. Seguiu-se Tratado de Troyes em 1420, que consagrava a união do rei inglês com a filha de Carlos VI, Catarina de Valois, convertendo-o no herdeiro presuntivo do trono de França.



LAC

domingo, 10 de dezembro de 2017

MARGINALIDADE NA IDADE MÉDIA


Pormenor de "As Tentações de Santo Antão" de Hieronymus Bosch (Museu Nacional de Arte Antiga).

No mundo medieval um camponês podia esperar uma “vida pobre, sórdida, brutal e curta”. A escassez material, a doença e a pestilência assim como o clima de insegurança e guerra, fazia com que as comunidades se fechassem sobre si mesmas e receassem de elementos exteriores. Uma grande ortodoxia religiosa conferia uma visão maniqueísta à sociedade medieval, em que todos eram santos ou pecadores. Do mesmo modo, o corpo era visto como um indicador moral de pureza, pelo que a doença, não raras vezes pintada com laivos sobrenaturais e de superstição, era temida e repelida. Podemos concordar com Jacques Le Goff quando este diz que o medo, era o principal factor de exclusão social das sociedades medievais. O terror instintivo e animal daquilo que não temos ferramentas para compreender.

Ao invés de, à imagem de Le Goff ou Geremek, tentar tipificar as várias marginalidades desta época e suas características, parece-me mais esclarecedor abordar as dinâmicas de exclusão no seio destas sociedades, ou seja, quais as razões que levavam um individuo até às margens ou a ser empurrado para estas. Neste âmbito recorri a um estudo realizado pelo Professor Luís Miguel Duarte incluído na Revista de Ciências Históricas da Universidade Portucalense.

Iremos portanto debruçar-nos sobre os medos, se quiserem as obsessões, que levavam as sociedades medievais a ser tão implacáveis para com os seus párias:

·        Obsessão pela ortodoxia religiosa: ideia de um único caminho para atingir a graça divina; Professar outras confissões, exercer mesteres tidos como imorais ou de um modo geral ter comportamentos obscuros podia levar à marginalização por parte da comunidade.
 
·        Obsessão pela doença: a ideia da indissociabilidade do corpo e do espírito; Era comum a percepção da doença como o espelho de uma alma pecaminosa ou os doentes como atingidos por maldição divina, de modo a que, por perigo real ou imaginário, os doentes eram muitas vezes remetidos às margens e ao ostracismo. O exemplo mais extremo é a segregação dos leprosos em gafarias e a obrigação destes de circularem com sinos para anunciar à comunidade a sua passagem.

·        Obsessão pela identidade: o desprestígio social do qual muitas vezes eram alvo as comunidades estrangeiras, em casos extremos alvos de perseguição e segregação, dos quais neste período se destaca as perseguições movidas às comunidades judaicas.

·        Repugnância pelo “contranatura”: Comportamentos encarados como “monstruosos”, como a bestialidade ou a sodomia.

·        Obsessão pela estabilidade: Desconfiança daqueles que levam um modo de vida errante, “os que não têm poiso certo”, como os monges sarabaítas, assim como os "arrivistas" que se servem de um estatuto que não é seu para obter vantagens, ou aqueles que foram alvo de despromoção social, que como Pêro Cem, “tudo teve e nada tem”.

·        Obsessão pelo trabalho: Desprezo pelos denominados “pobres falsos”; aqueles que embora fisicamente aptos para o trabalho não o fazem por opção, vistos como ociosos e personalizados na figura do vadio.


Bibliografia:
DUARTE, Luís Miguel; De que falamos nós quando falamos de marginais? Portugal na Baixa Idade Média in Revista de Ciências Históricas; Universidade Portucalense; 1996.
LE GOFF, Jacques; La civilisation de l'Occident médiéval; Arthaud; 1964.


LAC